21 de Janeiro de 2010 - “O Caçador de Pipas”
Na quinta-feira pós feriado amanheci cheio de disposição, o que não me fez entender como pude terminar o dia tão mal. Cheguei no trabalho com a mesma disposição que acordei e mesmo em dia agitado consegui render no trabalho e ainda fazer minhas coisas pessoais nas horas vagas.
Na internet alguns colegas comentavam sobre o Cabofolia, micareta de Cabo Frio que começava nesta quinta-feira, e acabei lembrando que tinha de ir a faculdade para retirar um documento para renovação do ônibus universitário. A idéia era ligar pra faculdade e perguntar que horas funcionaria a secretaria mas o burro aqui acabou esquecendo disso. O calor estava infernal.
No fim do expediente tomei um bom banho e com o restante da grana que ainda me restava embarquei pra Cabofri. Se arrependimento matasse é nessa hora que eu estaria morto. Cheguei na faculdade e os preparativos para a micareta que acontece bem próximo ao meu campus estavam a todo vapor e a fila de corpos sarados em trajes veraneios já começava a se formar. Passei pelo local em direção ao campus e lá chegando dei de cara com a porta. Já passavam das 19h e o segurança me disse que a secretaria funcionou até às 18h. Voltei o mesmo caminho com ódio de mim mesmo e de minha burrice.
Tal fato me estressou de maneira que fui me corroendo com aquilo até em casa e no caminho, dentro do ônibus entupido de gente, só pensamentos ruins vinham a minha cabeça. Cheguei em Araruama e fui andando pra casa com um desejo enorme de dar uma de “Veronika Decide Morrer”. Comecei a pensar enquanto minha vida é idiota e lembrar a certeza de que nunca serei feliz de verdade.
Quando éramos pequenos, meus primos e eu gostávamos quando minha mãe pegava a mão de cada um e pelo formato de nossas unhas dizia como seria nossa vida. Nas minhas ela via muita infelicidade, mas dizia pra eu não ligar para aquilo pois era bobagem e eu, criança, realmente não ligava mas hoje vejo que tinha um pouco de verdade nisso. Os maus pensamentos continuavam e ao chegar em casa e dar de cara com nossa dura realidade eles aumentaram ainda chegando a me fazer passar mal. Nesse dia não quis saber de músicas, nem de seriado e muito menos de Naruto. Meus primos nem se atreveram a me perguntar ao notarem minhas feições nada agradáveis e eu sabia que ia ser difícil cumprir com minha sessão de filme do dia naquele estado.
Já eram quase 22h quando me esforcei deixando o mau-humor de lado pra seguir com meu único momento de prazer do dia. Afastei os maus fluidos com um banho quase de descarrego que me deixou no banheiro chorando por quase horas e, quando acabei o banho, botei pra rodar “O Caçador de Pipas”. E eis que o filme me traz de volta a ativa.
Baseado no livro homônimo de Khaled Hosseini o filme que contava a história de 2 garotos afegãos e sua infância no país antes de explodir as guerras até a vida adulta quando um deles regressa ao país, agora dominado por talibãs, para reparar os erros do passado. Como mágica, ao me envolver nas histórias dos personagens do filme, esqueci completamente todos os problemas que ocupavam meus pensamentos. O livro que originou o filme não li, mas li o outro do autor de titulo “A cidade do sol” e assistindo ao filme achei grande semelhança no enredo de ambos, o que era prova de que a produção do filme foi bastante fiel com a história original.
As pipas voavam no céu de paz do Afeganistão de uma época e em outra as ruas eram tomadas por armas e ruínas mostrando que o país teve seu momento de glória onde o povo afegão vivia bem com sua cultura e religião até as desavenças políticas iniciarem. A amizade dos garotos e a traição de um deles chega a fazer ponte com a história do país quando uma parte do povo trai o próprio país e o transforma nas ruínas de hoje.
Lembro de quando li “A cidade do sol” cujo o pano de fundo também era a guerra mas ao contrário daqui era na vida de duas mulheres que a história do Afeganistão era contada. O fim de um dos personagens neste filme me fez remeter ao fim da personagem do livro porém em circunstâncias diferentes. O que tento dizer é que o núcleo ou melhor o centro das estórias de Hosseini são sempre focadas nas pessoas e no seu amor pelo país, apesar de tudo. Em “A cidade” Laila tem de sair do terror da guerra de seu país mas retorna anos mais tarde lamentando todo mal causado a sua terra natal. Da mesma forma, em “O caçador” Amir vai morar nos Estados Unidos fugindo da guerra e retorna para cumprir com uma divida do passado e lamenta ao ver que os céus onde antes voavam suas pipas agora só continham o voo de balas de metralhadores, mísseis e bombas.“O caçador de pipas” me ajudou a dar um tempo em minhas lamentações ao lembrar que sofrimentos muito maiores haviam pelo mundo. Enquanto eu lamentava minha infelicidade por coisas em partes ‘banais’, um pouco distante dali, num país devastado por desastre as pessoas ainda retiravam corpos de escombros e queimavam os mesmos por falta de tempo e local pra enterra-los. O Haiti ainda sofria e eu tinha que somente agradecer pois por maior que fosse os meus problemas sempre poderia ser pior.
Desliguei o filme e fui dormir conformado e esperançoso de que a vida pode e vai melhorar. Encerro por aqui e espero até a próxima parada de “uma vida em filmes”.